sábado, 25 de outubro de 2008

DESGRAÇA PELADA

Dizem que um dia viram a Desgraça Pelada. Um homem, não sei bem quem, e contaram-me assim e assim eu passo adiante, do jeito que me disseram. Se tem coisa que eu não faço é a tal da invenção. Mentira nunca foi o meu defeito, meu senhor... Minha mãe batia se a gente mentisse, de tal forma que cresci sem essa mania feia. Mas viram sim a tal da Desgraça Pelada. Era o tio de um amigo meu. Vivia xingando: “Desgraça!”. Um dia ela apareceu para ele. A tal da Desgraça Pelada, bicha feia, velha, enrugada, com jeito de faminta, mal-acabada, pulou para cima dele, o susto foi tão grande que ele perdeu a voz, ficou um ano inteirinho sem falar. O pior eu não conto, não senhor... Era quinta-feira santa. Mas não foi falta de avisar, não senhor, a mãe dele vivia pedindo para ele não xingar tanto. Ele chegou em casa, cansado e com fome. Só tinha quiabo com abóbora para comer. Aí ele começou a praguejar. Sua mãe triste, cansada pediu que ele parasse com aquilo. Ele, no entanto, não parou por aí, xingou a própria mãe, porque só tinha aquilo para comer, não tinha carne. A pobrezinha da mãe explicou que carne naquela casa não se comia na semana santa. E ele é que teimou ir trabalhar no feriado. Nem precisar precisava. A roça estava que uma beleza de bem cuidada, assim como todas as criações da fazenda. Mas o tal do fulano continuou praguejando, xingando e dizendo: “Desgraça! Desgraça! Desgraça!” Aí ele saiu de casa.

E não é que foi para o boteco tomar pinga! O dono da venda até troçou dele dizendo que na quinta-feira santa não é bom tomar cachaça. Mas acabou servindo a pinga para o fulano, debaixo do xingatório do cara. Aí é que as coisas pioraram mesmo. Com a cachaça na cabeça, ele começou a murmurar mais ainda falando mal de tudo, de todos e da desgraçada da mãe dele que tem coragem de servir abóbora com quiabo para quem trabalhou o dia inteiro. Chegou em casa por volta das nove da noite, de carona na rural que passava na porta da casa dele, do fazendeiro vizinho.

Chegando em casa, entrou dentro de casa, tropeçou no balde, xingou, xingou, tropeçou de novo, caiu de cara na mesa cheia de vasilhas. Levantou esbravejando e xingando: “Desgraça! Desgraça! Desgraça Pelada!” E foi fechar a porta, porque estava de noite. Acordou todo mundo, sua mãe já saiu do quarto chorando de mágoa. O fulano então caminhou para a porta e quando foi fechá-la, ela estava lá, atrás da porta. A Desgraça Pelada. Feia, rota, suja, fedida, em trapos, cabelo estranho escondendo o rosto. Agarrou os dois braços dele com as mãos e disse em voz sussurante: “Eu estou aqui...” E então ele gritou. Gritou, gritou e desmaiou. Ficou mudo, catatônico, por vários dias. Depois ele foi se recuperando, mas nada de falar, até que na quinta-feira santa desse ano, ele estava em casa, olhou para sua mãe, suspirou profundamente com a cara mais triste e disse: “Êta vida sofrida, meu Deus...” E voltou a cair no banzo. Calado. Dizem que ele está morrendo de tristeza, e deve ser verdade. Uma tristeza tão forte que eu nem quero ir lá para ver como é que ele está. O meu compadre que conta essa história, é que disse que o pai dele conhece a mãe desse homem, e ele só fica em casa triste, sorumbático.

Deve ser verdade sim senhor. A vida da gente é ruim, mas é melhor não chamar a desgraça pelo nome, que ela vem ver a gente.

Um comentário:

giovanne mchado disse...

oi amigo

vi sua historia e digo mais isso concerteza é verdade acontece com quem xinga muito,acontece geralmente na semana santa.
ah! antes que eu me esqueça a preguiça tambem é um ser demoniaco igula essa tal aí pois ela é a mae do diabo muitas pessoas já se depararam com ela.
esse mundo nosso tem muitos misterios.(abraço)