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Lembrei-me, ao lembrar-me de Goianésia, de Maria Criminosa. Uma imagem apagada na minha mente, é claro. Não me recordo nunca da cara dela. Mas sempre, na casa de minha avó, ouvia esse nome várias vezes. Mudamo-nos para a cidade, minha família e eu, em 1987. Minha avó materna morava relativamente perto da nossa casa, mas entre a minha e a casa dela havia uma enorme chácara, a chácara do Sr. Negrinho Carrilho, com pasto cheio de gado e a nascente do córrego símbolo da minha cidade: o Córrego Calção de Couro. Algumas vezes passávamos por lá, cortando caminho nas trilhas das vacas, bois e bezerros, e saíamos no fundo da casa da Dona Maria Criminosa.
Ri sozinho ao lembrar-me da senhora cuja face não me lembrava mesmo. Era comadre de meu avô, o filho dela, que chamávamos de Vá, pedia bênção para vovô e vovó quando ele ia lá. Tinha também a Sulemi, figuraça! E também outra filha dela, que não me lembro o nome agora. Mas nunca me esqueci de passar pelos fundos da casa da Maria Criminosa e sentir certo medo por isso. Por causa da história dela. Dizem que matou o marido às machadadas, porque o homem era ruim de morrer e havia ameaçado-a. Ela, sem muita escolha, deu-lhe no cocuruto com o olho de um machado. Dizem que o viu estrebuchar no chão sem um pingo de remorso. Seus amigos e vizinhos, solidários com sua dor e atestando a sua legitimidade em agir em defesa própria, jamais a denunciaram. Maria Criminosa morreu com esse crime nas costas, com essa pecha, com o respeito, a alcunha e a atmosfera de medo ao seu redor.
No entanto, essa história, como muitas, tem algo de engraçado. Além da tragicidade que evoca tanta coisa, além do exemplo feminista de ter superado um relacionamento onde era a vítima de tanta coisa ruim, Criminosa, como era conhecida de minha avó, era motivo de risos, quando chegava à casa de meu avô.
Mas para que a sua memória não fique manchada, nem mesmo se acuse minha avó de ser ruim demais com a pobre comadre, explico como é minha vovozinha. Uma senhora meio surda, às vezes inconveniente, às vezes um problemão, às vezes agindo como uma criança, vovó sempre foi contra essas amenidades sociais que cheiram à falsidade. Sempre sincera ao extremo, berrava portas adentro, ou mesmo na oficina de solda e carpintaria de vovô: “Nego! A Maria Criminosa taí!”. Nego era meu avô, apelido, por ele ser de pele escura. E para ela, toda despachada: “Entra, cumade Criminosa. O Nego já evém”. Nisso, vovô de cara no chão, falava com mamãe: “Maria, vai lá na sua mãe e manda ela parar de chamar a D. Maria de Criminosa, pelo amor de Deus, onde sua mãe tá c’oa cabeça, Maria?”. E minha mãe, mais que depressa chegava à minha avó: “Mãe, pelo amor de Deus, mãe, deixa de chamar a Dona Maria de Criminosa! Ninguém fala isso dela assim na cara não mãe”. À essa altura, Dona Maria Criminosa já estava vexada, sem graça, achando o jeito de cair fora, olhando várias vezes para a porta. Não adiantava falar com minha avó. Quer dizer, não adiantar é pouco. Piorava muito mais. Aí que minha avó falava mais alto ainda: “Mas ela é criminosa mesmo!” E passava para dentro da sala com café na xícara a entregar para a sem-graça da Dona Maria, que cumpriu severa pena por homicídio, ao ter que agüentar os desaforos de minha avó calada... Dona Maria Criminosa faleceu há anos... Pena não ter podido cumprimentá-la por sua contribuição valorosa ao imaginário popular.
Recentemente, numa dessas viagens que Rafael e eu fizemos à minha quente e ensolarada cidade, pudemos constatar a veracidade dos fatos da vida de Maria Criminosa, de seus atos e feitos, de tudo o que cerca a sua existência, pudemos ver uma de suas três filhas, falamos de Sulemi, que virou lenda urbana em Goianésia, e conversamos com minha avó, que repetia Criminosa incessantemente, incomodando a pobre alma que deve jazer a pagar pelos seus erros, mas louvavelmente correta, por ter havido sucesso em sua empreitada de salvar sua vida de um marido em fúria. Maria Criminosa, minhas lembranças e meu sincero kudo...
Goiânia, 26 de outubro de 2008.
1 comentários:
Keki...
Muitoooo bom!!!!
Maria Criminosa fez parte de nossa infância...achei que iria se esquecer dela!
Parabéns! Pareço ouvir a vovó contando a triste história de Maria...
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