segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O NOVATO

Chamava-se Roberto. Odiava que lhe chamassem de Beto. Beto. Ridículo, pensava. Nome de criança. Roberto, Roberto. Gostava de ser Roberto. Era ranzinza, chato, insuportável e intratável. Mas era chefe. Quem ousaria molestá-lo? Poucos. Tinha poucos que lhe ousariam resistir em sua autoridade baixa, ali dentro. Trabalhava num escritório, chefiando uma seção qualquer numa sucursal de uma empresa importante. O escritório era uma ampla sala, cheia de divisórias com computadores e algumas ilhas, mesas redondas, divididas em três. Era um espaço onde conviviam diversos departamentos e mais de vinte funcionários. Era somente um chefe de seção. Nada mais. Um chefezinho. Toda a sua real atribuição era prestar contas de várias coisas, de seu departamento aos chefes maiores. Nada de mais. Não tinha tanto poder nas mãos. Mas intimidava alguns, sabiam que Roberto era muito incisivo, exigente. Já outros não estavam nem aí para o que ele era ou deixava de ser.

Contra esses, Roberto não fazia nada, mas não se mostrava dócil também. Uns eram funcionários velhos de casa, pessoas já acostumadas às suas rotinas. E Roberto, mais um chefe mal-humorado dentre milhões no mundo inteiro. Não fazia questão de se sentir especial. Apenas queria ser deixado em paz por aqueles que considerava um povinho chato. No entanto, Roberto era sábio em expressar sua opinião. Sabia que esse tipo de agressividade poderia gerar atritos. Ele jamais quisera ser responsável por isso ou coisa parecida. Amava seu cargo. Era muito importante para ele chegar àquele ponto. Ganhava bem. A verdade é que Roberto era cheio de manias, cheio de coisinhas, de defeitos e idiossincrasias. Desde pequeno, acostumou-se a ganhar tudo no grito, a passar por cima de todos. Seu truque-mor: brigar. Perder a razão era uma forma segura de se afirmar, de passar por cima de sua mãe, de seus irmãos e de estabelecer um território seguro para continuar como sempre quis as coisas. Depois de maduro, estabelecer na vida, sempre foi uma tarefa difícil a ele. Sempre quis mostrar a todos que era capaz. Só que escolhia sempre uma forma diferente de avultar isso: acima de tudo queria que vissem que não somente ele era o melhor, como todos ao redor eram incompetentes.

Essa filosofia de vida rendeu-lhe essa chefia. Acha-se, no entanto, que sua chatice é que determinou a sua promoção. Neuroses de escritório. Todos querem saber por que um progrediu e outro não progrediu. Há sempre teorias a respeito. Com alguns anos de escritório, Roberto criou em torno de si uma cápsula. Ninguém que viesse lhe contar piadas, embora ele quisesse contar e esperava que ao menos um risse. Ninguém que lhe cumprimentasse demais. Logo perguntaria: “O que quer?” Ninguém que lhe pusesse apelidinhos, chamava na hora e tomava satisfações, fazia o escarcéu. Ninguém que nada. Ninguém que lhe fosse amistoso. Gostava de tomar iniciativas nesse campo. A não ser a moça do cafezinho e uma estagiária, somente o office-boy da empresa que gostava dele. O resto, quando não podia desprezá-lo, tolerava porque não tinha outro jeito.

Um belo dia, um reboliço no escritório. Eram nove da manhã e um zunzunzum entre duas moças do departamento de pessoal. Ouviu seu nome umas três vezes. De sua mesa, perguntou às mocinhas o que era. Elas responderam que nada não. Não falavam dele. Abaixou os olhos para o teclado do computador e continuou seu trabalho.

No outro dia, um ar de alegria diferente no ambiente. O chefe chamou todos e apresentou o novo funcionário. “Seu xará, Roberto”, disse o chefe com um sorriso estranho. Outro Roberto. Bem... Indiferente, como todos, cumprimentou ao novato. Muito bonito, notou Roberto, o outro era bonito, atraente, as mulheres do escritório já o tratavam com aquela cordialidade interesseira. Roberto então se lembrou do dia anterior. Certamente as moças do departamento de pessoal já sabiam do novato. Viera por transferência da matriz, era economista, blá-blá-blá... Que bom, pensou Roberto, vai passar longe de mim.

Nos dias que se seguiram, Roberto irritava-se. Por causa do outro, pensou. Era um tipo humoradíssimo, sangüíneo, daqueles que parecem irradiar luz aonde chega. O veterano indiferente a todos, dessa vez começou a se irritar. Motivo: ouvia a toda hora seu nome. Não por causa de si, mas do xarazinho. “A essa altura”, pensava o veterano, “já deve saber quem eu sou e certamente vai se bandear para o lado dos outros”. E os outros gostaram. Ele era a sensação do momento. Apesar de não ser do departamento de Roberto veterano, o novato sentava-se relativamente perto, numa das divisórias e a todo o momento, aquele sorriso luminoso dele brilhava em suas vistas. Roberto, Roberto... Ali pelo fim da primeira semana o golpe final... Roberto, o novato, vira para a chefa do departamento de pessoal, uma loira falsificada tida como a mais popular de todos, e diz: “Roberto... Muito formal... Chame-me de Beto, adoro”. O veterano ouviu tudo. Teve uma palpitação, foi ao bebedouro, depois tomou café, depois foi ao fumódromo e dois cigarros depois, já sentado na mesa, o escritório inteiro tratava seu xará de Beto, e todos pareciam chamá-lo quase que ao mesmo tempo, num eco insuportável.

Parecia um pesadelo. O que fazer? Suportar, resignar-se... Nada, no entanto, satisfazia-lhe. Ver-se livre dele? Paranóia. O carinha não fez nada... O ódio surdo-mudo de Roberto já estava a incomodá-lo demais. Na volta para casa, distraía-se no trânsito à toa, o que fê-lo chegar à sua casa com várias buzinadas no ouvido. Estava triste, cansado, exausto. Não gostar dos outros cansa. Banhou-se. À frente do espelho, para mais um barbear, olhou bem para seus olhos. Por que odiá-lo, ele é tão simpático. Tão amável... Tão perfeito. Tentava lembrar com minúcias de Roberto novato. Um sorriso radiante. Só isso. Belo sorriso, pensou a desenrolar a toalha. Estava ligeiramente excitado... Ah... Bobagem.

Roberto, o veterano, era separado há três anos. O único filho do casal estudava fora, ele o via nos finais de semana programados. Sempre saíam juntos, ou ficavam em casa. Pelo menos o guri gostava de futebol, assim, podiam ficar longos períodos assistindo aos campeonatos do momento. Isso não gasta nem conversa e nem dinheiro. Casado. Já fora casado. Por que pensar no maior dos seus fracassos? O que fazer. Tocou seu membro semiteso. Pegou nele com sua mão... Não. Não se sentia à vontade para nada. Não. Largou. Vestiu seu pijama, dormiu o sono dos injustos, mesmo.

No outro dia, uma boa idéia lhe passou ali, pela nove da manhã. Por que não se aproximar do outro? Por que não? Faria uma amizade sólida e sonora com ele. Estariam amigos logo, se eles se tornassem amigos, o escritório inteiro ficaria de cara no chão. Uma ótima forma de humilhar a todos aqueles chatos que o discriminavam, que o taxavam de mal-humorado. Uma forma de deixar perplexo o Saraiva, o chato de plantão do escritório. Aquele tipo comediante com piadas indiscretas o tempo todo... Bem, depois da chegada do outro no escritório, sempre que passava pela mesa de Roberto, o veterano, ele dizia: “E aí, Betão...” Saraiva ficaria perplexo com a amizade. Isso. Seriam os dois Robertos. O outro haveria de gostar dele, de ir visitá-lo algumas vezes, de participarem de eventos sociais juntos. Gostaria de conhecer a mulher de Roberto. Ele era casado? Descobriria, mandaria vinho e queijos no Natal, se tiver filhos, presentinhos... Ficaria caro? Então só o vinho e os queijos.

Passou por ele, na sua mesa, o outro he sorriu... Mexeu as sobrancelhas e meneou a cabeça. Foi aonde ia, voltou. Sentou. Foi ao banheiro. Incrivelmente teve um lampejo, elogiou o garoto: “Que sorriso maravilhoso o dele... Merece uma moldura”. Pensou, pensou, foi à sua gaveta, lá havia um frasco daquelas loções de bochecho anti-sépticas. Usava sempre, porque fumava e morria de medo de câncer de boca... Neuroses. Ao sair do banheiro, esbarrou nele, no cafezinho... Perdeu o medo. Cumprimentou-lhe, tocou-lhe o ombro e finalmente apertou-lhe a mão. Olhou bem para ele. Roberto era o tipo moreno surfista, cabelos meio longos, puxados para trás, olhos pequenos, rosto bem masculino e quadrado... Barba bem feita, roupa bem colocada no corpo de porte atlético. Olhou rapidamene para a mão dele, nenhum sinal de aliança. Nem sombra. Devia ser solteiro. Perguntou coisas banais, bateram um papo desses comunzinhos. A partir daí, o veterano era muito bem tratado pelo novato, que sempre lhe abria um sorrisão enorme todos os dias. Que bom. Sorria levemente. Depois de um tempo, sempre batiam um papinho no café. Um dia, teve uma oportunidade ímpar de aproximar-se mais ainda. O carro do novato quebrara e depois de chamar o guincho, o veterano ofereceu-lhe uma carona até casa. Ora. Seria mais confortável. Ambos conversaram sobre muitas coisas. O novato jamais falava sobre mulheres. Inquirido sobre isso, limitou-se a dizer que era apenas muito só e que casar não estava nos seus planos para o próximo decênio. Chegando ao apartamento do novato, foi convidado a entrar, pelo menos para tomar uma água, um café. Titubeou, mas acedeu e ambos tomaram um uísque. O novato saiu para ir ao banheiro. Apartamento simples, bem decorado, bonito por dentro. Procurou vestígios com os olhos de uma vida comum, achou apenas uma foto... Olhou bem, reconheceu... Não podia ser parente. Era uma foto de Diana Spencer... Riu de si para si. Quem teria a coragem de ter uma foto da Lady Diana em cima de um aparador, num porta-retrato? Procurou com os olhos alguma coisa que tornasse aquela casa mais séria, mais com cara de... Epa... Roberto era gay... Olhou na cara dele a sorver o último gole, será? Pediu para ir ao banheiro, quando o outro voltou. Nada de mais, na volta não perdeu um centímetro quadrado sequer. Cama de solteiro no quarto de porta entreaberta. Não sabia. Não perguntou. O que poderia ter com a vida do rapaz? Nada... Agradeceu o uísque com tapinhas nas costas. Roberto acompanhou-o até em baixo.

No outro dia, o novato foi à sua mesa e lhe agradeceu de novo. Haveria de retribuir aquele favor... Ele sorriu largamente e disse que era de nada. Fizera sua parte de amigo. Aquela palavra ardeu-lhe nos lábios. Amigo... Era bom falar aquilo. Depois, na ida costumeira ao toalete, viu-se novamente meio excitado. Tocou-se como se não cresse naquilo. Por quê? Olhou para trás, lá estava o bonitinho do novato entrando e indo para o mictório ao lado. Continuou ali, tentando urinar, com a sua uretra meio estrangulada por aquela semi-ereção. Olhou para cima, enquanto o colega urinava. Olhou de uma vez no seu rosto quando flagrou o novato dando uma boa olhada ali, naquele lugar... Bobagem, pensou. Curiosidade masculina. Roberto, o novato, sorriu amarelo, saiu e foi ao lavabo, penteou-se novamente com os dedos, após lavar a mão. Lá no mictório, o veterano experimentava uma excitação enorme. Respirava fundo para aquele estado passar antes de sair dali. Quando estava mais calmo, foi ao lavabo, higienizou suas mãos, arrumou os cabelos. Estava grisalho na laterais. Achava isso um charme. Olhou seu rosto. Enxuto, bonito, escanhoado, 40 anos, estava cheirando à sua colônia francesa predileta, roupa bonitinha. Não estava com mau-hálito. Eram mais de dez horas e ainda não havia fumado... Passou os olhos sobre seu corpo. Magro. Bonito. Nada mau, pensou... Nada mau. Voltou ao trabalho. No fim da tarde, Beto, o novato, passou na sua mesa, deixou-lhe uns relatórios de trabalho. O veterano tocou-lhe o braço. “Espera aí”. “Sim...” “Bem”. “Queria retribuir o favor que eu lhe fiz, não é?” “Claro, Roberto. Você é um ótimo colega, e sinceramente, fiquei muito agradecido de me levar em casa... Puxa... Só de pensar no preço do táxi... Brigadão, adorei... Você foi muito legal mesmo”. “Que nada”. “Foi sim. Quer saber, não tem nada de sério e sisudo, como todos diziam, muito amigo, muito humano...” “Obrigado, Beto”. “Que isso, como já disse, eu é que lhe devo um favor”. “Então. Quer retribuir mesmo? E que tal a gente pegar uma happy hour hoje num bar ali, perto de casa? Muito legalzinho, discreto, confortável, musiquinha...” “Opa! Na hora, camarada! Isso não vale, vou continuar devendo o favor assim mesmo”. “Tudo bem”, disse o veterano. “Eu sei cobrar bem...” O sorriso dele surpreendeu o novato que sorriu de volta, em resposta, como que a entender tudo o que se passava...

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