domingo, 25 de janeiro de 2009

BRASÍLIA



Fui à Brasília no ano passado, em decorrência da realização de uma prova de concurso que eu participava. Não tinha mesmo esperanças de passar, embora tenha sonhado bastante com o quanto me ajudaria um bom salário... Pelo menos conheci Brasília de perto, e quando esperava o ônibus de volta para Goiânia, numa plataforma fétida e esquisita, escrevi este poema:

Brasília, cidade fria
Concreto e aço a brotar do cerrado devastado
Cidade que desperdiça espaço
Ruas difíceis de atravessar, pretas, cinzentas
Brasília, cidade clara
Onde procuro o preto dos quilômetros de asfalto
Para descansar as minhas retinas
Brasília, cidade suja
Terra vermelha que aflora dos gramados ralos
Dos caminhos sulcados pelos passantes nos mesmos
Calçadas encardidas e tudo preto de fuligem
Brasília, cidade dos automóveis
Que se enfileiram às dezenas nos sinais fechados
Carros enormes carregando um só egoísta
Brasília, cidade do desperdício
Muito céu azul e luz
Muita gente
Muito poder
Brasília, cidade cara
Comida cara
Passagem cara
Gente mau-humorada
Brasília, cidade orgulhosa
Gente desconfiada nas ruas, gente que não acolhe
Gente que nega uma informação, por medo
Por despeito, ou indiferença, sei lá
Brasília e seus postes elétricos
Sozinhos, curvados em reverência a seus monumentos
Fios escondidos, flores de luz e metal a brotar do asfalto
Brasília, cidade-modelo
Brasília, cidade-futuro
Brasília, cidade branca, preta, cinza, bege
Brasília, cidade sem montanhas
Brasília, cidade alta
Brasília das árvores leguminosas, pequenas
Brasília dos espaços vazios, prédios modernos
Brasília e seu mar de hotéis caros
Das dezenas de ônibus nas ruas
Das grandes distâncias
Das cidades satélites
Das nuvens sob o azul cerúleo
Do capim amarelado
Do verde morto
Dos prédios baixos
Das noites frias
Dos ruídos
Brasília, cidade mal-cheirosa.



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